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Autenticamente falsos

10/11/2009 09:57:00

O conflito entre originalidade e cópia, na arte e no mercado

O pintor holandês Han van Meegeren (1889-1947) dedicou quase toda a sua carreira à falsificação. Uma falsificação peculiar, diga-se de passagem: voltada a apenas um artista (Johannes Vermeer, também holandês, que viveu entre 1632 e 1675) e apoiada não em reproduções de quadros conhecidos do conterrâneo, e sim em pinturas novas nas quais imitava o estilo e a temática de Vermeer. Produziu, por décadas, diversos falsos Vermeers nos quais exibia uma técnica que em nada ficava a dever à do artista original, enganando críticos e marchands.

A trajetória de van Meegeren, contada por Frank Wynne em "Eu fui Vermeer" (Cia. das Letras), é um estímulo a reflexões sobre a importância da autoria no território das artes. Ao entrevistar um falsário contemporâneo, Wynne obteve dele uma declaração para lá de provocativa: "ninguém compra um quadro porque acha bonito; compra pela assinatura, compra para ter um Warhol na parede".

O que vale para as artes vale para o consumo? Nem é preciso muito esforço para enxergar uma semelhança entre falsificações de quadros com a de marcas que são objeto de desejo do nosso tempo: Nike, Apple, Louis Vuitton. Mas há uma diferença: normalmente, as falsificações nas artes plásticas prosperam ao ludibriar compradores que acreditam estar adquirindo peças verdadeiras. Nos bens de consumo é diferente; dificilmente alguém que adquira bolsas, computadores e pares de tênis em camelôs é ingênuo a ponto de acreditar que são autênticos.

Minúcias da trapaça à parte, no consumo vigora uma verdade semelhante àquela expressada pelo entrevistado de Wynne: a marca é muito mais importante do que o produto.

Além disso, em ambos pode-se discutir o valor genuíno existente em originais e cópias. A rigor, um quadro falso pode provocar tanto prazer estético quanto um verdadeiro, tornando a importância da autenticidade secundária para a experiência sensorial do observador. No entanto, a veracidade é essencial do ponto de vista econômico; ainda que um quadro falso proporcione grande satisfação estética ao proprietário, seu valor patrimonial se esvai caso um comprador em potencial desconfie de sua autenticidade.

No caso de bens de consumo, falsificações bem feitas imitam à perfeição o visual de objetos originais. Considerando que é raro esses produtos, depois de usados, terem expressivo valor de revenda, é de se perguntar qual seria, então, a vantagem de adquirir objetos autênticos. As marcas defendem sempre o argumento da qualidade. Porém, algumas cópias podem funcionar satisfatoriamente, justificando-se numa relação custo-benefício. Não fosse assim, não atrairiam consumidores com poder aquisitivo suficiente para comprar originais.

No fundo, a arte e as marcas temem o mesmo: o esvaziamento do significado de suas produções. O mito da habilidade única e da originalidade sustenta ambos os setores, conservando sobre eles uma aura de superioridade raramente contestada, mas que pode ser colocada à prova por um van Meegeren - ou por fabricantes chineses, coreanos e paraguaios dispostos a tirar uma lasquinha do prestígio alheio.

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